Desigualdade Racial no Brasil: os impactos na saúde mental

A desigualdade racial no Brasil é fruto da discriminação e do preconceito racial, impacta o desenvolvimento do país e prejudica as esferas socioeconômicas da população negra. Leva desde ao desemprego até ao sofrimento psicológico. As metas para sua redução estão retratadas no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 10. Nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, cada um representa um problema em níveis global e local que os países devem enfrentar. Dentre eles, a desigualdade, que está no objetivo 10, é tratada como um tema estratégico para eliminação da pobreza. Ele necessita de soluções integradas para reduzir a desigualdade socioeconômica e o combate a todas as formas de discriminação. Esta meta, assim como todas as outras, não trata especificamente do racismo, mas salienta a inclusão social, econômica e política, independentemente de raça, com os diferentes setores convergindo em prol da igualdade de oportunidade para todos. Principalmente para as pessoas excluídas e à margem do desenvolvimento. Na última Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, organizada pela ONU em Durban (2001), o Brasil foi a maior delegação externa, com participantes dos movimentos negros e indígenas. Teve atuação relevante nas manifestações e nas comissões de trabalho, com destaque para o movimento de mulheres negras. Racismo, sexismo e sequelas emocionais As mulheres negras incluíram na pauta os sofrimentos psicológicos vividos com o racismo e sexismo, que geram sequelas emocionais, baixa autoestima e prejuízo na saúde mental, o que foi denominado como “asfixia social”. Os danos vão desde o menor índice de matrimônio, expectativa de vida cinco anos a menos do que as mulheres brancas e, acima de tudo, as mulheres negras estão destinadas às ocupações de menor prestígio e remuneração. Essa realidade, por sua vez, também afeta o lado emocional e alimenta um círculo vicioso. Para atuar no combate à desigualdade racial, a ONU proclamou a Década Internacional dos Afrodescendentes, 2015 – 2024 (ONU, 2015). Os Estados partes se comprometem a proibir e eliminar todas as formas de discriminação racial e garantir, entre outros temas, o direito ao trabalho, à livre escolha, a condições equivalentes e satisfatórias, à proteção contra o desemprego, a um salário igual, e uma remuneração equitativa e satisfatória. Em 2018, a Revista Retratos do IBGE publicou o estudo “IBGE Mostra as Cores da Desigualdade”. A reportagem aponta que algumas ferramentas da estatística, como o índice de Gine, podem ser utilizadas para medir as desigualdades no Brasil e acompanhar as metas do ODS 10, principalmente a relacionada à renda. Na realidade brasileira, a desigualdade tem diversas vias, são elas: a desigualdade de renda, de oportunidade, no mercado de trabalho e o estigma de não se sentir aceito em um determinado local. A situação socioeconômica dos negros tem níveis muito baixos quando comparadas com a população branca. Sobre o mercado de trabalho o estudo sugere que o “Brasil está muito longe de se tornar uma democracia racial”. Efeitos devastadores do desemprego O desemprego tem efeitos devastadores, para além da perda dos ganhos financeiros, na vida do indivíduo. Se o aspecto financeiro fosse o único, um auxílio desemprego (programas sociais) resolveria o problema. Mas ele afeta a saúde física e psicológica; traz a sensação de desmotivação; acarreta a perda de confiança e sensação de inutilidade, incapacidade de produzir e ser útil para a sociedade; desequilibra a vida familiar e contribui para exclusão social e os conflitos raciais. Para os negros, esta situação é ainda mais devastadora, pelo histórico da escravidão e o racismo.Este grupo já carrega o fardo da desigualdade em vários aspectos sociais pela cor da sua pele e fenótipo, que não podem ser escondidos ou negados. O negro ainda é visto como sinônimo de pobreza financeira e intelectual, desde as pesquisas de Neuza Santos nos anos 80, até os dias atuais com Cristina Junqueira, a sócia do Nubank, que participou de um programa de entrevistas Roda Viva. Ao falar sobre a dificuldade de contratar negros para ocupar posições estratégicas na empresa, relatou que “não dá para nivelar por baixo”. O racismo opera através da segregação, culpabilização e descrença, o que gera no indivíduo um sentimento de menos valia, incapacidade e dependência. Esses sentimentos fazem com que o sujeito tenha dificuldades variadas de se colocar no mundo de forma diferenciada daquilo que se espera dele, pois o que a sociedade espera deste grupo é que esteja no lugar subalternizado, privados de sua liberdade e de ser o que deseja. Esperam que sejam dominados sem resistência. O negro precisa “se impor” Diante desta realidade o negro precisa “se impor”, como descreveu Neuza Santos. Essa postura de defesa contra os ataques constantes que chegam através da discriminação e preconceito racial, é um suporte de proteção do eu, é a exigência de que seus valores, seu conhecimento, sejam respeitados, é a urgência por igualdade de oportunidade, por escuta e fala. O negro ainda carrega a representação de si como alguém que precisa provar que é bom, “ser mais”, caso queira ascender socioeconomicamente. O Conselho Federal de Psicologia (CFP), em parceria com os Conselhos Regionais, elaborou e apresentou à categoria e à sociedade um documento intitulado “Relações Raciais: Referências Técnicas para a Prática do Psicólogo” (2017). O documento tem como objetivo orientar o trabalho do profissional de psicologia nas três dimensões do racismo: Institucional; Interpessoal e Pessoal. No documento o CFP descreve a construção do racismo e assume o compromisso de combatê-lo. O racismo tem “sido uma ideologia que opera poderosamente na sociedade como motor de desigualdades que engendram as precárias condições de existência do povo negro”, configurando-se como uma grave violência estrutural e institucional presente na sociedade brasileira (CFP, 2017, 6). Os problemas psicológicos gerados pela desigualdade racial, tendem a se agravar com a pandemia do Covid-19, ao levar insegurança e instabilidade com relação a proteção social. A OMS fez um estudo sobre os transtornos mentais nos países do continente americano e o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas, além disso, os brasileiros convivem por mais tempo com os prejuízos gerados pelos transtornos psicológicos. O site de pesquisa do… Continuar lendo Desigualdade Racial no Brasil: os impactos na saúde mental

Ações empresariais antirracistas surpreendem e contribuem para ODS 10

Este ano começou com muitas mudanças no mundo do trabalho. Com a pandemia muitos trabalhadores perderam seus ganha pão e, como era de se esperar, os negros foram os mais prejudicados com o desemprego e piores condições de trabalho. Mas ações empresariais antirracistas surpreendem o mercado com a contratação de negros para cargos de maior responsabilidade. Uma iniciativa inovadora do Magalu chega para contribuir com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Algumas empresas e instituições estão com iniciativas de abrir vagas direcionadas para negros em cargos de maior responsabilidade. O movimento é positivo, mas precisamos monitorar essas vagas para saber quem está sendo contratado e se os cargos estão realmente sendo ocupados por negros. Esse movimento está em evidência e requer um olhar analítico, para não correr o risco de ser apenas “Marketing Racial”. Ou seja, a contratação de uma pessoa negra como estratégia de propaganda, visando o lucro, mas não tratando a desigualdade racial de forma estrutural dentro da empresa e supostamente acenar com a ausência do racismo. Esse não parece ser a intenção do Magazine Luiza. A empresa traz uma iniciativa inovadora no campo da igualdade racial no mercado de trabalho ao direcionar o Programa de Trainees 2021 somente para população negra. A iniciativa foi alvo de críticas, mas também de muitos elogios nas redes sociais. Desenvolvimento socioeconômico foi negado aos negros Para aqueles que criticam é importante refrescar a memória com relação ao sistema laboral no Brasil e suas políticas. Após o período de escravidão, os negros escravizados não receberam nenhum valor pelo trabalho prestado e tampouco foram contemplados com políticas de inclusão no mercado de trabalho. Pelo contrário, houve um programa de abertura para mão-de-obra europeia, com a desculpa de que os negros não eram qualificados. Esta situação forçou os negros a ficarem com as tarefas mais pesadas e de menor remuneração, situação que permanece até hoje. Aos negros foi negado o desenvolvimento socioeconômico. Houve a mão do Estado na formação e manutenção da desigualdade racial ocupacional. Alguns momentos da história retratam os pensamentos discriminatórios que alimentaram o quadro de desigualdade racial que temos hoje. Para ilustrar uma passagem e mostrar que a desigualdade racial no mercado de trabalho não é uma preocupação recente, Eliana Barbosa da Conceição (2013) retrata a discussão que se dava na década de 1960. Após argumentação no Ministério do Trabalho e do Tribunal Superior do Trabalho sobre a discriminação e desigualdades raciais, um dos técnicos sugeriu fazer uma pesquisa sobre a situação da população negra para embasar uma lei de cotas para os trabalhadores negros. Ao tomar ciência, Rachel de Queiroz, escritora e jornalista cearense, escreveu uma carta ao Ministro da Justiça. Dizia que o país não poderia assumir a existência da discriminação e o mais aconselhável era continuar com a discriminação velada. Abdias Nascimento na luta pela democracia racial Ao longo desses anos, houve várias tentativas de se olhar para o mercado de trabalho e desenvolver uma política que pudesse contribuir com a igualdade. Abdias Nascimento, na década de 80, então senador e uma das lideranças negras brasileiras, propôs um projeto de lei estabelecendo medidas compensatórias. O objetivo era de se criar uma “verdadeira democracia racial” no Brasil. O projeto previa 20% dos postos de trabalho, nos órgãos administrativos públicos diretos e indiretos, para homens negros e a mesma proporção para mulheres negras, nos postos de trabalho e direção. A justificativa era a indenização da sociedade e do Estado, pelo trabalho não remunerado dos negros escravizados e sub-remunerados. Ademais, os negros não vieram para o Brasil por livre espontânea vontade, mas sob todas as formas de maus tratos e tortura física e mental. Para Abdias Nascimento “Saldar essa dívida fundamental para com os edificadores do Brasil, acrescentando que sem o esforço do trabalho do negro este país não existiria”. O movimento negro brasileiro sempre lutou bravamente pela igualdade racial dentro do país. Não houve sucesso. Conferências mostram efeitos do racismo Na esfera internacional tivemos vários acordos firmados, que trazem o compromisso com a igualdade. Desde a Carta dos Direitos Humanos, passando pela Convenção 111 da Organização Internacional do Trabalho, até os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Este, em seu número 10, trata da Redução das Desigualdades e chama a atenção para os grupos vulneráveis e a necessidade do aumento da renda dos mais pobres. Assim, entendendo o conceito de desenvolvimento sustentável associado aos aspectos distributivos e de equidade social. Ainda no nível mundial, foram realizadas três conferências para tratar do racismo, discriminação e preconceito racial. A última foi em Durban (2001) onde a delegação brasileira foi de grande importância e muitas das reivindicações entraram no documento final. Estas conferências serviram para mostrar as consequências do racismo, que, no caso específico do Brasil, leva a desigualdade em vários âmbitos sociais, econômicos e ambientais. E foi com a luta do movimento negro e também destes acordos mundiais que o Congresso brasileiro aprovou em 2010 o Estatuto da Igualdade Racial. Tratamentos desiguais na desigualdade O que vemos hoje acontecer no mercado de trabalho, de forma tardia, e que precisa de um acompanhamento para avaliar e monitorar as ações, é consequência de uma luta de anos. É um dever da sociedade, de seus órgãos públicos e privados, reconhecer o racismo estrutural e suas ramificações, que levaram à desigualdade racial nas atividades laborais. O mercado está saindo na frente e cobramos que o Estado também reconheça sua contribuição para a desigualdade racial nesse campo. É preciso que atue com políticas de ações valorativas e afirmativas de cotas para negros e punitivas quando relacionadas ao racismo e seus desdobramentos. Eliane Barbosa nos lembra que só há uma forma de aceitar o tratamento desigual: se for para beneficiar um grupo que historicamente recebeu tratamento desigual. Bibliografia Esta reflexão é parte da Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Sustentável da autora: “Desigualdade Racial no Mercado de Trabalho à Luz dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, PPGPDS – UFRRJ, 2020”. – CONCEIÇÃO, Eliane Barbosa da. Programa de Promoção da Igualdade de Oportunidade para Todos: experiência de ação afirmativa… Continuar lendo Ações empresariais antirracistas surpreendem e contribuem para ODS 10

Desigualdade Racial no Mercado de Trabalho não é normal

Em 2016 o Instituto Ethos apresentou os resultados da série de pesquisa “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativa”. Os dados mostram a desigualdade racial no mercado de trabalho e uma certa naturalização, como se fosse “normal” a falta de representação da população negra nos cargos executivos. O fato estampa a distância no alcance dos compromissos internacionais firmados e do Estatuto da Igualdade Racial. O Instituto Ethos trabalha há mais de 20 anos com a responsabilidade socioambiental junto às empresas, apoiando e ajudando na gestão sustentável e responsável, para contribuir com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. As empresas associadas ao instituto têm acesso aos Indicadores Ethos de Negócios Sustentáveis e Responsáveis e a cada quatro anos a entidade realiza a pesquisa “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas”. Empresas não têm programas para inclusão de negros Estamos na “Década Internacional do Afrodescendente 2015-2024”, para o reconhecimento, justiça e desenvolvimento do afrodescendente. Proclamada pela ONU, no entanto, mesmo diante do quadro de desigualdade racial no mercado de trabalho, a pesquisa mostra que a maioria das empresas não têm programas para inclusão de negros e que o total da participação de negros nas empresas é de 34,4%. Com relação aos cargos, os negros são 57,5% dos jovens aprendizes, 58% dos trainees (profissionais graduados iniciantes) e 25,9% dos supervisores. Os dados dos cargos iniciais são animadores, mas conforme a atividade requer mais responsabilidade e liderança a quantidade de profissionais negros diminui drasticamente. No quadro executivo os negros ocupam 4,7% dos cargos, sendo as mulheres negras com as condições mais desfavoráveis de 0,4%, ou seja, são duas mulheres em um universo de 548 diretores, negros e não negros, de ambos os sexos. Apesar de uma parcela dos entrevistados reconhecerem a baixa presença de executivos negros, outra parcela significativa dos gestores das empresas respondeu que a presença de negros, no quadro geral, é adequada. Necessário superar o “marketing da diversidade” Outro ponto que contribui com a diversidade é a diminuição de campanhas ineficientes e que tragam efeitos negativos para a imagem da empresa, como, por exemplo, a última da Bombril que lançou uma esponja com nome de conotação racista “Krespinha”, dando um sentido pejorativo ao cabelo dos negros (= a soma de pretos e pardos de acordo com IBGE), o que fez viralizar a #BombrilRacista como um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Com tantas pesquisas, especialistas e ações educativas que debatem o tema do racismo, discriminação e preconceito racial, campanhas como esta não são mais aceitáveis. Assim como é intolerável a desigualdade racial no mercado de trabalho numa sociedade cuja população é formada em sua maioria por negros e que no último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM 2019) constavam como maioria de inscritos. O que parece é que as empresas estão longe de assumirem uma postura de responsabilidade social que vá além do lucro, do “Marketing da Diversidade”. Desigualdade racial nasce junto com a sociedade brasileira É importante lembrar que a desigualdade nasce junto com a sociedade brasileira e teve a contribuição do governo para manter esta realidade social, seja pela falta de políticas sociais para a população que havia sido escravizada ou no incentivo à contratação de mão de obra europeia após a abolição da escravidão. O Objetivo 10 tem metas para a promoção da inclusão social e econômica de todos, o aumento de renda dos mais pobres e a garantia de igualdade de oportunidades através de eliminação de práticas discriminatórias. Mas, tendo em vista que o governo atual sancionou o plano plurianual com veto para as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como as empresas e a sociedade podem romper com a lógica de exclusão e criar mecanismos de desenvolvimento socioeconômico para a população negra? Seguem aqui algumas sugestões para enfrentar o desafio da desigualdade estrutural que atinge os negros do Brasil. Sugestões para enfrentar desigualdade estrutural Governos Desenvolver ações valorativas da contribuição do negro no Brasil; Estabelecer ações punitivas, para garantir o cumprimento da Lei nº 12.288 – Estatuto da Igualdade Racial; Implementar ações afirmativas com programa de cotas de contratação de profissionais negros nas empresas públicas e privadas. Empresas Diálogo com as entidades negras; Criação de um setor para tratar das relações raciais na empresa; Ações valorativas (valorização dos afro-brasileiros) e educativas (história afro-brasileira) para o público interno e externo a empresa; Iniciar ações afirmativas com programas de cotas ou metas para inclusão de profissionais negros visando a igualdade racial; Criar metas de promoção dos profissionais negros para os cargos de gestão visando a igualdade racial; Comprar bens e serviços de fornecedores cujos donos sejam negros, ou que façam parte das minorias; Na área de investimento social privado, investir em programas de apoio financeiro para estudantes negros. Pessoas Ler sobre o tema; Consumir de empresa que tenha em seu quadro societário, no mínimo, um sócio negro; Contratar empreendedores e serviços de profissionais negros; Apoiar ações e políticas públicas de combate ao racismo; Buscar informações para saber se seus candidatos políticos estão comprometidos com uma agenda racial; Fomentar a igualdade racial no seu setor ou empresa. Uma sociedade democrática deve promover condições de acesso a recursos que possibilitem a igualdade de oportunidade, educação, saúde e leis de proteção social, para que a liberdade de escolhas individuais possa ser exercida. Todos nós podemos contribuir para garantir os direitos de oportunidade de forma justa e igualitária. Bibliografia Esta reflexão é parte da dissertação de mestrado em Desenvolvimento Sustentável da autora: “Desigualdade Racial no Mercado de Trabalho à Luz dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, PPGPDS – UFRRJ, 2020.” MYERS, Aaron. O Valor da Diversidade Racial nas Empresas, RJ, 2003. Texto publicado originalmente em 22 de julho de 2020, para o portal Negrxs50+. Acesse.

O que há por trás das boas intenções dos ODS sob liderança da ONU?

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão sendo amplamente divulgados e muitos projetos institucionais e empresariais sendo planejados tendo como base e/ou justificativa suas metas. A intenção pode ser boa, mas algumas metas parecem utópicas dentro de um sistema capitalista. Este sistema tem como base o crescimento econômico, a adequação de recursos ao lucro e mercados regulados pelas grandes empresas. O capitalismo restringe a distribuição da riqueza e dos bens públicos levando a desigualdades estruturais. A construção de uma governança global liderada pela ONU buscou com os ODS dar respostas, ou melhor, solucionar, a crise socioambiental e econômica, consequências do sistema capitalista. Através de conferências mundiais e declarações internacionais a ONU chancelou um programa de “Desenvolvimento Sustentável” com objetivos e metas para quatro dimensões: Sociais: relacionadas às necessidades humanas: alimentação, água, saúde, educação, bem-estar, igualdade, justiça. Econômica: trata do consumo e produção, energia limpa, dos resíduos, entre outros. Ambiental: trata da preservação do meio ambiente, conservação dos mares e oceanos até o combate à mudança do clima. Institucional: parcerias globais para o fortalecimento e implementação do desenvolvimento sustentável. Mecanismos do capitalismo e desenvolvimento sustentável Analisando os mecanismos do capitalismo e o programa com as dimensões do desenvolvimento sustentável, cabe algumas observações com relação a alguns pontos que, à primeira vista, parecem ser contraditórios. A primeira observação está relacionada ao crescimento econômico x meio ambiente. O crescimento econômico está ligado ao Produto Interno Bruto (PIB), a capacidade de uma região ou pais de produzir. Para que este crescimento ocorra são necessários matéria prima, indústria, tecnologia, recursos do meio ambiente, além disso, muito desses processos acabam gerando poluição: do ar, do solo e das águas. Desta forma, fica difícil pensar em crescimento e preservação do meio ambiente. A segunda observação está relacionada à acumulação de riqueza x redução das desigualdades, que consta no ODS número 10. A acumulação de riqueza não necessariamente vem acompanhada da diminuição das desigualdades. Nos últimos anos vemos o contrário, um exemplo disso, é o caso dos EUA, um país desenvolvido e com alta taxa de desigualdade de renda entre os países ricos (World Inequality Report 2018). A terceira observação está relacionada aos símbolos utilizados. Percebe-se no ODS número 8 – “Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos”, o símbolo de uma seta apontada para cima, e no número 12 – “Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis”, o símbolo como o oito deitado. Os dois trazem uma ideia de infinito, sem limite, o que fica incoerente quando se lê a descrição destes objetivos. Questão racial não foi incluída na agenda da sustentabilidade Outro ponto importante é a falta de um objetivo para tratar da interseccionalidade com a agenda racial. O debate em torno da construção dos ODS, não foi articulado aos enunciados da III Conferência Mundial contra o Racismo – World Conference Against Racism (Durban 2001). Esta conferência respondia à luta contra o Apartheid da África do Sul e as demandas colocadas em Conferências anteriores, como a Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena, 1993) e as Conferências Mundiais de Combate ao Racismo, Discriminação Racial (Genebra, 1978 e 1983). A conferência reconheceu o racismo, a constante violação dos direitos humanos e as desigualdades estruturais que afetam o acesso aos direitos básicos e a igualdade de oportunidade dos povos afrodescendentes. Os impasses desta agenda levaram a ONU a implementar a Década do Afrodescendentes (2015 – 2024). Entretanto, a questão racial ainda não foi incluída na agenda da sustentabilidade. A questão racial é tratada de forma genérica. Neste sentido, é importante que seja qualificado um debate específico sobre as desigualdades raciais no âmbito dos ODS, um debate que leve em consideração as especificidades de cada povo, cada grupo social. Desta forma, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ao negligenciarem determinados padrões de desigualdade, parecem reforçar a promoção global do capitalismo e desviam os olhares que poderiam estar focados numa revisão social profunda, onde a quantidade dê lugar a qualidade e os meios de produção possam ser compartilhados. Estamos presos às posses, o “Ser” deu lugar ao “Ter” Parece que estamos condicionados a uma forma determinada de sociedade que, mesmo falida, insistimos em sustentá-la como se não estivesse vida longe do consumo desenfreado, da acumulação de riqueza e das desigualdades. Estamos presos às nossas posses, de ter mais e mais e esquecemos de estabelecer contato. O Ser – eu sou, deu lugar ao Ter, eu tenho. Em “Ideias para Adiar o fim do Mundo”, Ailton Krenak pergunta: “Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser?”. Ele faz uma crítica ao conceito de sustentabilidade, segundo qual seria uma utopia engenhosa das corporações para separar a humanidade, ser humano – da Terra, nos somos natureza, tudo é natureza. Vamos colocar para fora o “não dito”, não dá mais fara fugir, fingir que não existe. No mundo 820 milhões de pessoas passam fome (ONU), no Brasil o desmatamento aumentou 50% em 2019 (Observatório do Clima), a pobreza atinge 54,8 milhões de pessoas no Brasil (IBGE, 2017). A desigualdade racial no Brasil, fruto do racismo e da escravização, faz com que os negros possuam severas desvantagens com relação a população branca: na educação, no mercado de trabalho, na distribuição de rendimento, nas condições de moradia, na violência e repressão policial. Vamos continuar sonhando para “adiar o fim do mundo” Não sei o que há por trás da boa intenção dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, mas não podemos romantizar, deixando para a governança global a solução dos nossos problemas. Nós fazemos parte da sociedade e podemos ser atores da mudança que queremos ver. É preciso sonhar, compartilhar nossos sonhos, torná-los realidade através das ações individuais e coletiva, estar atentos às pautas defendidas pelos governantes que escolhemos. Vamos nos alimentar de esperança, estar abertos a novas experiências e acordar para continuarmos vivos. Vamos continuar dançando, sonhando e fazendo histórias para “adiar o fim do mundo”. Bibliografia – AILTON, Krenak. Ideias para Adiar o Fim do Mundo– DIEGUES,… Continuar lendo O que há por trás das boas intenções dos ODS sob liderança da ONU?

ODS, você sabe o que são e para que servem?

A Segunda Guerra Mundial foi o conflito que mais matou pessoas na história da humanidade. Após as atrocidades que ocorreram os países estavam preocupados com uma possível poluição que seria causada pela radiação provocada pelos armamentos. Neste mesmo período, o movimento ambientalista passou a se destacar pelos alertas feitos em relação aos produtos químicos sintéticos utilizados na agricultura, que poderiam causar danos ao meio ambiente e à saúde humana. A urgência em preservar o ecossistema, para cuidar da saúde e bem-estar da humanidade, ganhou corpo, assim como ações que pudessem ajudar e beneficiar o maior número possível de pessoas, após anos de sofrimento. Para organizar estas discussões e unir os países no mesmo objetivo de preservação e cuidado, nasceu a Organização das Nações Unidas – ONU, após anos de discussões e planejamento, e, posteriormente, a Carta de Direitos Humanos, que fala sobre o direito à vida e à liberdade. Neste contexto de preocupação global com a preservação do planeta para proteger a saúde das pessoas, vários tratados foram criados entre os países, para garantir estes direitos. Outras questões surgiram e com elas a incerteza diante do futuro: como garantir os direitos humanos diante da incerteza do planeta? Nosso Futuro Comum Em 1987, durante uma convenção organizada pela ONU, foi divulgado o relatório “Nosso Futuro Comum”, que conceituou o desenvolvimento sustentável como: “aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. “Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é o principal objetivo do desenvolvimento” (ONU). Após 20 anos de trabalho, em 1992, a ONU organizou a Eco-92 que aconteceu no Rio de Janeiro. O relatório final deste encontro ficou conhecido como a Agenda 21. O programa de ação desta agenda incluiu questões relacionadas à preservação do meio ambiente, os padrões de comportamento que estavam causando a destruição do meio ambiente e a pobreza, além disso, tratou da necessidade de promover e dar suporte às ações dos grupos sociais: mulheres, indígenas, sindicatos, ONGs, cientistas. Para proporcionar este programa a ONU estabeleceu a Comissão para o Desenvolvimento Sustentável. Em 2000, após várias conferências que aconteceram nos anos 90, os líderes mundiais se reuniram e apresentaram os oito Objetivos do Milênio com metas acompanhadas de indicadores. As lideranças globais se comprometeram a reduzir a pobreza extrema, por meio desses objetivos, até 2015. Estes objetivos ajudaram os governos a investirem em políticas públicas e as empresas a direcionarem seus investimentos em projetos sociais, o que faz emergir a responsabilidade social empresarial. Rio+20 e os ODS Em 2012, a ONU organizou uma conferência que ficou conhecida como Rio+20, com a participação de 188 chefes de Estado e Governos. Nesta conferência houve maior participação e vários grupos e setores da sociedade: quilombolas, povos da floresta, ONGs, economistas, empresas públicas e privadas. Após três anos, em 2015, os problemas mundiais foram apresentados como os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS e suas 169 metas, para serem alcançadas até 2030 – Agenda 2030. Os ODS foram apresentados buscando concretizar os “Diretos Humanos” de todos e estimular as ações dos países, das instituições públicas e privadas, mas também da sociedade civil em torno dos desafios de erradicar a pobreza, fome zero, educação de qualidade, redução das desigualdades, vida marinha, vida terrestre e outros. Agora que você conheceu, de forma resumida, como os ODS foram construídos, reflita: qual desses objetivos está relacionado ao que você faz? Será que os maiores problemas mundiais estão contemplados nestes objetivos? Você consegue identificar um problema da sua cidade ou do seu país que esteja contemplado nesses objetivos? Eu me identifico com o objetivo 10 – redução das desigualdades e você? Texto publicado originalmente em 23 de maio de 2020, para o portal Negrxs50+. Acesse.

Responsabilidade Social Corporativa – Dimensões Internas

Por Sideise EloiOrientadora: Analice AraújoAno 2010 Resumo Este trabalho tem por objetivo investigar e identificar as ferramentas de gestão de responsabilidade social empresarial direcionadas ao público interno das empresas, bem como a importância deste público na implementação desta nova cultura empresarial. A metodologia utilizada é a pesquisa bibliográfica fundamentada através do método exploratório com a intenção de entender a realidade relacionada ao tema da Responsabilidade Social Empresarial e seu mecanismo de gestão voltado ao público interno. Para coleta foram utilizados livros, revistas, trabalhos acadêmicos e instituições que trabalham com o tema. Para melhor compreender a dimensão interna da responsabilidade social empresarial foram utilizados os Indicadores Ethos para o público interno: relação com sindicatos; gestão participativa; relações com trabalhadores terceirizados; compromisso com o futuro das crianças; compromisso com o desenvolvimento infantil; valorização da diversidade; compromisso com a equidade racial; compromisso com a equidade de gênero; política de remuneração, benefícios e carreira; cuidados com saúde, segurança e condições de trabalho; compromisso com o desenvolvimento profissional e a empregabilidade; comportamento frente a demissões e preparação para aposentadoria. Como resultado pode-se perceber que o conceito de responsabilidade social ainda está em construção, entretanto há elementos fundamentais que acompanham o conceito como a Ética, Transparência e a Governança Corporativa. Os autores têm uma preocupação em mostrar a importância do público interno neste processo, assim como todas as normas e certificações têm indicadores voltados para público interno. As empresas estão reconhecendo a importância dos seus colaboradores e o RH tem um papel fundamental no desenvolvimento de ações de responsabilidade social voltada para o público interno da empresa. https://www.lares.ie.ufrj.br/index.php/pt/pos-graduacao/14-pos-graduacao/cursos-pos-graduacao/182-sideise-bernardes-eloi-responsabilidade-social-corporativa-dimensoes-internas